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domingo, 14 de fevereiro de 2016

Pedro Brant

Era Terça

Era terça-feira, tinha que ser. Pra que ele iria morrer num final de semana se podia morrer no meio da semana e atrapalhar todas as atividades cuidadosamente projetadas e marcadas. Pelo menos é relativamente fácil se vestir para esse tipo de ocasião, preto, sempre o fúnebre, o frio, preto.


Entrei no carro, fui até o velório, o céu até ameaçou chover, mas no fim parece que quem quer que tenha morrido não justificou a chuva, ainda. Tem um leve transito, mas ainda assim nenhum som, sem buzinas, sem ambulantes, sem nada. Já reparou como as coisas que tem importância mudam dependendo do foco de damos para elas?

Me atrasei, todos já estavam lá. Pelas portas de vidro podia ver todas aquelas pessoas ali. Familiares, amigos e conhecidos, ninguém nem falava, só se olhavam. Até agora eu não sabia nem a causa do óbito e nem lembrava o nome do defunto, ia parecer um idiota no funeral.

Não adiantava procrastinar mais na porta, devia entrar e encerrar logo com esse rito social dessa pessoa que eu esqueci o nome! Juro que ainda não sei como, pelo visto não nos conhecíamos direito, então porque diabos vim aqui?

Entrei. Ninguém nem se mexeu, fui caminhando, e como a maioria nem me deu atenção, continuei meu caminho pro caixão para prestar a homenagem final ao Sr. Esqueci. Ninguém mais parecia querer olhar pra ele. A tampa estava aberta, minha vez de vê-lo, mas não quero, odeio ver cadáver, e algo está me apertando o peito.

É um homem, parece da minha idade, mas pera, parece demais comigo. Eu não tenho sósia, nem irmão gêmeo, que porra é essa? Eu tô aqui! Não nesse caixão, ou não?

Bastou um olhar, procurando o certo. Enquanto pensava que era um funeral ridículo de alguém irrelevante, eu não pude reparar que todos estavam na verdade consolando minha mãe, e que a pessoa mais próxima, estática ao do caixão era meu irmão. Nem mesmo reparei que todos ali eram diretamente ligados a mim, por laços de amizade, familiares ou do trabalho.

Eu morri, e estou tão desligado de mim que nem percebi. Me tornei tão sem importância pra mim mesmo que meu próprio funeral foi irrelevante pra mim.

*toc**toc*

“Três pessoas pediram para pronunciar algumas palavras a este que nos deixa, na vida desses três, essa pessoa as tocou de uma forma boa, passo a palavra a elas.”

Bom, posso ir embora. No fim fiz algo certo e nem percebi, imagine se tivesse consciente do que estava fazendo. Que idiota eu sou, morri e nem percebi.

Olha só, agora está chovendo.

Fonte da Imagem: Pxfuel


Pedro Brant

About Pedro Brant -

Escritor de horas vagas. Deixando os pensamentos formarem ideias e, constantemente, exercitando a criatividade do pensar livre.

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1 comentários:

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Guilherme
AUTHOR
19 de fevereiro de 2016 às 07:07 delete

Gostei do ambiente que você criou.
Você escreve bem, consegue transportar o leitor para a cena que projeta.
Achei interessante também a reviravolta, acaba nos levando a fazer uma boa auto-reflexão.

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