Aquela casa na árvore já estava mais para casa
fantasma, com seus dois pequenos cômodos com todos os seus esconderijos e
segredos. Há anos ela não convivia nenhuma gargalhada de criança, não era o
ponto de nenhuma reunião secreta ou a base de nenhum vilão prestes a destruir o
mundo.
Para qualquer um parecia agora apenas uma pilha de
madeira esperando o fim de sua decomposição, mas não para mim. Eu apenas via
ali um baú do tesouro, guardando tantas lembranças quanto possível. Eu vi tantas
coisas acontecer ali naqueles galhos, batalhas interestelares entre diferentes
raças e com as mais diversas armas e poderes, também houveram lutas medievais
entre casas nobres e cavaleiros e cavaleiras honrados, várias dimensões diferentes,
algumas das quais criadas apenas para aquela ocasião. Mas a maioria dessas
histórias terminava com final feliz, mas algumas tinham, no fim, que sofrer
intervenção de uma “entidade superior”, mas eu realmente quase nunca tinha que
interferir.
Os anos foram passando e as lutas e dimensões foram
ficando casa vez mais escassas. Mesmo que eu ainda tentasse estimulá-las a
acontecer, elas naturalmente diminuíram. Até que vi os guerreiros abandonarem o
campo de batalha das várias dimensões para irem a batalha da nossa dimensão.
Vi aqueles que achei que não cresciam, crescerem e irem
ao mundo. Quando temos um filho nós acabamos emprestando um pedaço de nós, a
questão é só que nunca mais pegamos isso de volta, eles ficam carregando para
sempre esse pedacinho com eles, sem nem saberem que possuem com eles tal parte.
Ficamos procurando com o que preencher esse pedaço
quando o vemos partir, e ver a casa da árvore desta forma só ajudou a aumentar
a sensação. Foi então que, como pressagio, resolvi começar a reformar a casa da
árvore. Estava só em casa, por seis meses, então vi minha grande chance.
Foi quase um semestre inteiro, pela primeira vez eu e
a casa da árvore tínhamos um segredo só nosso. Reformar cada madeira, cada cômodo,
sem perder a essência, sem matar nenhuma lembrança, sem revelar nenhum segredo
que havia sobrevivido por todos esses anos, isso sim foi uma tarefa quase impossível.
Terminei. Minha tarefa de aposentado, bem a tempo de surpreender
cada um deles. O almoço de natal em família está quase aí e até o papai vai
vir. Está acabando a pós e ele chegará também a tempo. Já imagino a cara deles.
O grande dia, engraçado como cada um deles já
esqueceu da existência da casa da árvore, estão tão presos nesta dimensão que
se esqueceram de todas as ameaças que eram combatidas ali. Estávamos ali, já de
barriga cheia, ao redor da mesa. Meu momento perfeito de chamar todos para
sentar no quintal, afinal tá um sol lindo.
Queria ter tirado uma foto das caras deles, os cinco
desligaram dessa dimensão e é como se tivessem entrado naquele turbilhão de
lembranças que eu fiquei marinando por meses enquanto reformava a casinha. Nos
abraçamos por um minuto que parecia eterno. Ouvi um obrigado pai, seguido
daquela que seria a única surpresa que não esperava naquele momento, você vai
ser um ótimo vô.
Vô. Olha só, não reformei a casa da árvore pra mim,
reformei para o meu neto. Uma daquelas grandes coincidências da vida.
