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terça-feira, 21 de junho de 2016

Pedro Brant

A Casa da Árvore

Aquela casa na árvore já estava mais para casa fantasma, com seus dois pequenos cômodos com todos os seus esconderijos e segredos. Há anos ela não convivia nenhuma gargalhada de criança, não era o ponto de nenhuma reunião secreta ou a base de nenhum vilão prestes a destruir o mundo.

Para qualquer um parecia agora apenas uma pilha de madeira esperando o fim de sua decomposição, mas não para mim. Eu apenas via ali um baú do tesouro, guardando tantas lembranças quanto possível. Eu vi tantas coisas acontecer ali naqueles galhos, batalhas interestelares entre diferentes raças e com as mais diversas armas e poderes, também houveram lutas medievais entre casas nobres e cavaleiros e cavaleiras honrados, várias dimensões diferentes, algumas das quais criadas apenas para aquela ocasião. Mas a maioria dessas histórias terminava com final feliz, mas algumas tinham, no fim, que sofrer intervenção de uma “entidade superior”, mas eu realmente quase nunca tinha que interferir.

Os anos foram passando e as lutas e dimensões foram ficando casa vez mais escassas. Mesmo que eu ainda tentasse estimulá-las a acontecer, elas naturalmente diminuíram. Até que vi os guerreiros abandonarem o campo de batalha das várias dimensões para irem a batalha da nossa dimensão.

Vi aqueles que achei que não cresciam, crescerem e irem ao mundo. Quando temos um filho nós acabamos emprestando um pedaço de nós, a questão é só que nunca mais pegamos isso de volta, eles ficam carregando para sempre esse pedacinho com eles, sem nem saberem que possuem com eles tal parte.

Ficamos procurando com o que preencher esse pedaço quando o vemos partir, e ver a casa da árvore desta forma só ajudou a aumentar a sensação. Foi então que, como pressagio, resolvi começar a reformar a casa da árvore. Estava só em casa, por seis meses, então vi minha grande chance.

Foi quase um semestre inteiro, pela primeira vez eu e a casa da árvore tínhamos um segredo só nosso. Reformar cada madeira, cada cômodo, sem perder a essência, sem matar nenhuma lembrança, sem revelar nenhum segredo que havia sobrevivido por todos esses anos, isso sim foi uma tarefa quase impossível.

Terminei. Minha tarefa de aposentado, bem a tempo de surpreender cada um deles. O almoço de natal em família está quase aí e até o papai vai vir. Está acabando a pós e ele chegará também a tempo. Já imagino a cara deles.

O grande dia, engraçado como cada um deles já esqueceu da existência da casa da árvore, estão tão presos nesta dimensão que se esqueceram de todas as ameaças que eram combatidas ali. Estávamos ali, já de barriga cheia, ao redor da mesa. Meu momento perfeito de chamar todos para sentar no quintal, afinal tá um sol lindo.

Queria ter tirado uma foto das caras deles, os cinco desligaram dessa dimensão e é como se tivessem entrado naquele turbilhão de lembranças que eu fiquei marinando por meses enquanto reformava a casinha. Nos abraçamos por um minuto que parecia eterno. Ouvi um obrigado pai, seguido daquela que seria a única surpresa que não esperava naquele momento, você vai ser um ótimo vô.

Vô. Olha só, não reformei a casa da árvore pra mim, reformei para o meu neto. Uma daquelas grandes coincidências da vida. 

Parece que verei novas aventuras em breve.

Fonte: itsmyhouse

Pedro Brant

About Pedro Brant -

Escritor de horas vagas. Deixando os pensamentos formarem ideias e, constantemente, exercitando a criatividade do pensar livre.

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