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sábado, 18 de dezembro de 2021

Pedro Brant

O Ceifador

Aqui estou eu, por esse período interminável no escuro, esperando o próximo nome que teria sua alma levada embora do plano terreno. Não sabia a quanto tempo eu já era um ceifador, não tinha mais muitas das minhas memórias, só tinha as memorias dos meus erros e falhas de quando era vivo. Era forçado a revivê-las sempre, pois eram minha única companhia.


Isso nunca me deixava esquecer o porquê de eu estar aqui, vivendo este purgatório. Um suicídio. Tirar uma vida, mesmo que seja a sua própria, sem razão, era motivo de punição.


Estava parado no escuro, sem roupas, apenas com a veste preta pela qual ceifadores são conhecidos e eternamente segurando a foice. Não, ela não é o instrumento de matar, ela só desconecta a alma do plano terreno, e assim podemos levá-la embora.


Comecei sentir a queimação no meu braço esquerdo, o nome da próxima pessoa marcado na minha pele. Era hora de trabalhar novamente.


É uma função muito triste levar pessoas embora. Poucas são as que realmente estão prontas, sentem que terminaram sua passagem na terra. Na grande maioria separamos amores, diminuímos famílias, tiramos pais de seus filhos, ou filhos de seus pais, destruímos sonhos...


Quando menos me dei conta já estava na frente da casa da próxima pessoa. Como sempre, para a morte, as portas estão destrancadas. Vou caminhando até o quarto em busca da alma que deveria levar comigo, porém...


- Quem é você? Como entrou aqui? Por que está fantasiado de morte? – Questionou como um raio ao me ver.


Perguntas para o representante da morte são normais, mas todos sabem já que estão mortos. As vezes barganham, as vezes entram em negação. Mas dessa vez algo parecia diferente, não parecia uma simples negação a morte.


- Eu sou o representante da morte. – Comecei – Você morreu e vim levar...


Parei imediatamente. Estou a tanto tempo fazendo isso, que não me dei conta da coisa errada. Ela não havia morrido. Ainda. Reconheci os sinais, ela estava com tudo pronto para um suicídio. Como eu havia feito.


- Você não está morta. -Falei baixo, como se para notar a realidade dos fatos.


Congelada, com os remédios ainda na mão, ela me olhou.


- Já vou estar, se você veio me buscar, pode esperar que já vou contigo.


Senti medo, ver meu erro sendo cometido de novo, não podia deixar acontecer novamente, não importa a punição, já estou no purgatório mesmo o que poderia ser pior?


- Não faça isso. A vida é nosso maior presente. – Comecei.


- PRESENTE? Acho que você não tem noção de como é estar vivo. Você só tem que carregar que morreu.


- Talvez eu realmente tenha me esquecido de como é estar vivo. Não sei nem meu nome mais. Mas sei de algo importante, é na vida que a gente pode aproveitar.


Ela fez menção a me interromper. Ergui a mão em sinal que ia continuar. Eu precisava continuar.


- Eu me matei, não sei quanto tempo atrás mais. Eu tinha problemas sem solução, perdi aqueles que chamava de amigos, vi meus sonhos morrerem, minha vida perder sentido. Até que decidi que não valia a pena viver.


- Se você me entende, por que está sendo advogado da vida aqui?


- Porque eu não poderia estar mais errado. Somente na vida podemos achar solução para nossos problemas, apenas vivos podemos encontrar novos amigos, criar novos sonhos, até mesmo achar novos problemas para resolver. Podemos mudar de direção, começar tudo de novo, fazer dar certo de outros jeitos. Depois de morto só te sobra lamentar o que você poderia ter feito.


- Vida – segui dizendo – é como um relógio, só anda pra frente, e se para, não tem mais o que ser feito com ele. Você sempre pode tentar de novo, mudar tudo, fazer diferente, mas só enquanto estiver viva.


Ela soltou os remédios, o alívio me acometeu. Me senti humano de novo, pela primeira vez, desde que esse purgatório começou.


- Queria ter um amigo como você.


- Você pode. – eu disse dando um sorriso – Seres humanos são tão vastos e tão diferentes entre si, que com certeza você vai achar alguém além de mim pra te dar sermão.

- Obrigada.


E depois dessa única palavra eu fui tirado de lá. Ela havia desistido, não havia mais morte ali, não tinha porque um ceifador estar ali. Agora era hora de eu encarar a punição por evitar uma morte.


Quando abri os olhos, não me vi no breu de sempre, não tinha mais as marcas dos nomes que ceifei marcados na minha pele, eu não era mais um ceifador. Parece que ensinar minha lição era minha libertação. Posso seguir para o descanso em paz finalmente. 

Fonte da imagem: https://www.redbubble.com/

    

Pedro Brant

About Pedro Brant -

Escritor de horas vagas. Deixando os pensamentos formarem ideias e, constantemente, exercitando a criatividade do pensar livre.

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