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quarta-feira, 20 de setembro de 2017

Pedro Brant

Brainstorm sobre Suicídio

Desta vez começo com apenas uma pergunta. Já sentiu vontade de morrer? 

Sim? Então deixe-me esclarecer e reformular. 

Ter vontade de morrer porque seu dia foi cansativo, estressante, ou porque deixou sua comida favorita queimar e agora vai ter de comer miojo com salsicha não contam. Estou falando de vontade de morrer vendo a morte a solução de seus problemas, chegando ao ponto de elaborar ou até mesmo tentar realizar a própria morte. 

Agora, reformuland, já sentiu vontade de se matar?

Se em algumas das vezes você respondeu “NÃO” eu te convido a abrir a mente para ver o suicídio pela visão do suicida. Caso sua resposta seja “SIM” na última pergunta, por favor, me acompanhe até o fim.

Pular de um prédio em direção aos fios de alta tensão, tomar uma cartela cheia de remédios tarja preta, comer veneno para rato ou até mesmo namorar uma faca procurando o melhor jeito de se matar sem sofrer no processo. Tudo isso ocorreu comigo ou com pessoas próximas a mim, mas até chegar neste ponto existe um longo caminho, e ele não é, e nunca foi, sem volta.

Vamos esclarecendo as coisas aos poucos. 

O suicídio é visto como a forma máxima e final de fuga e tentativa de resolução de problemas que a pessoa com tendência ao suicídio vê como única solução. Neste ponto estamos tão convictos que não tem outra solução, pois tudo que tentamos já falhou e nada deu resultado que cada vez mais o fim da vida parece uma solução plausível para cessar aquela sensação de dor e angustia.

Por acaso, você já sentiu que você não tinha importância? Ou que sua presença não era relevante ou significativa? Ou que simplesmente nada dava certo? Já sentiu durante semanas aquela vontade de só não existir? Nunca levantar da cama? Ignorava a fome porque não tinha disposição nem para comer? Já realmente desistiu da vida? Muitos SIMs aqui podem significar depressão.

Neste momento que entramos num terreno pouco sólido para a maioria das pessoas, então antes de continuar tenham ciência de que depressão não é uma tristeza que passa. Não é só falta de sol. Não é só preguiça. Não é frescura. Não é falta do que fazer. Ao mesmo tempo, dizer que qualquer estado de tristeza é depressão também está errado. Posso ter perdido alguém muito importante para mim e passar semanas triste, mas me recuperar e seguir a vida, como posso entrar num estado de depressão sem ter perdido ninguém e nem nada grave ter ocorrido. Quem realmente rege a depressão é a química dos nossos cérebros. Claro que fatores externos ajudam, mas não são exclusivos.

A depressão é um ingrediente muito poderoso na receita de formação da ideia de suicídio. Sob influência da depressão é como se iniciássemos uma luta. É como se a mente entrasse num dilema ético entre acabar com o próprio sofrimento e no processo causar mais sofrimento nos outros. Nesta luta é comum perder as batalhas quando estamos nela sozinhos. Sem alguém que pode ser amigo, parente, colega; e, em muitos casos, da ajuda profissional correta, esta luta se torna cada vez mais difícil. 

Até que chegamos ao ponto de inflexão.

Deste ponto em diante cada segundo se torna mais importante para quem está de fora e nós de dentro nos sentimos cada vez mais impotentes. É o ponto em que a vontade de morrer supera o receio de causar dor em quem gostamos, é quando a guerra interna acaba e o lado egoísta da disputa ganha. Neste momento apenas terminar com aquilo que te machuca importa e, nesse caso, viver é que machuca, e se no processo você acabar causando dor as pessoas a sua volta é apenas parte do processo. Neste ponto é quando a ideia do suicídio se solidifica. 

Para quem nunca havia pensado ou ouvido nada disso pode parecer bizarro, e hoje para mim é bizarro pensar que passei por isso, mas estava com o julgamento distorcido pelo desequilíbrio químico que meu cérebro estava passando, e quando você está neste estado estes pensamentos são mais normais que alguém que nunca passou por isso pode imaginar.

Usando uma metáfora clássica, o copo está sempre vazio para o suicida em potencial. Veja que disse vazio e não meio vazio. Nada é bom, tudo está ruim, os lados negativos de tudo são exagerados enquanto os positivos diminuídos.

É como imaginar que nossa felicidade fosse uma estrada. Estamos andando no plano a maior parte do tempo, pode ter umas subidas que demoram mais a voltar para o nível que estávamos, ou umas descidas que demoramos mais a subir de volta para a origem, mas no fim sempre voltamos ao mesmo nível do começo. Com a depressão é como se tivéssemos pegado um túnel embaixo da estrada, estamos sempre abaixo do nível de felicidade que normalmente estaríamos, e para piorar, nas subidas o túnel sobe menos e nas descidas ele desce mais.

Mas, depois de tudo isso, se voltarmos ao início do texto eu falei que não era um caminho sem volta. O que um suicida potencial precisa não é que todo mundo pergunte se ele está bem, ele precisa de apoio, muitas vezes esse apoio é aquele empurrão que faltou para ele procurar um psicólogo ou psiquiatra. Para ele o mundo é uma merda, incorrigível e cada vez pior. O mundo pode até ser uma merda, mas não é incorrigível, e nem é feito só de maus momentos. A felicidade não é eterna nem constante, mas é alcançável, e formada de pequenos picos de alegria. 

Para os SIMs no início do texto, saibam que existe volta e vocês não precisam andar esse caminho sozinhos. Para os NÃOs, ajudem a quem precisa, espero ter deixado claro suficiente que há muito mais acontecendo do que podemos ver.

“Hold on tight
This ride is a wild one
[…]
Now don't lose your fight kid” Missing You – All Time Low

“Some days it feels like I’m still getting nowhere
I walk in circles round and round

[...]
Some days are good
Some days are tough
Some days these dreams just ain’t enough” Somedays – Lostprophets

Centro de Valorização a Vida - Disque: 141
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domingo, 14 de maio de 2017

Pedro Brant

Brainstorm sobre Parenting

Nem todos nascemos para ser pai ou mãe. Alguns de nós, por opção, passaram pela vida sem saber o que é isso, como é ter um filho. Outros, muitas vezes não por opção, descobrem como é ter um filho, alguns desses já tinham o desejo, outros veem o sentimento e desejo nascer junto com o filho, mas existe aquela parcela que nunca verá isso nascer.

Mas antes de prosseguir, precisamos de uma definição, vamos ver um significado figurativo retirado de um dicionário:

Mãe: Aquela oferece cuidado, proteção, carinho ou assistência a quem precisa.

Se tratando de uma sociedade que o papel de criação de filho não compete mais apenas a mulher, poderíamos dizer que Pai é o masculino análogo da mãe neste caso. Certo?

Vamos agora pensar como nós definimos socialmente pai e mãe. Pensou? Agora guarde o que pensou, no final vamos comparar.

Algumas pessoas buscam título de pai e mãe, como se fosse um achievement a ser atingido, um souvenir que se compra numa viagem, um troféu que se põe na estante, por vezes apenas por pressão social. Mas já parou para se pensar que faz muito mais sentido esse título ser merecido ao invés de recebido?

Vamos a 3 cenários com 3 diferentes mulheres, temos uma mulher que adota uma criança abandonada, temos uma mulher que cria uma criança órfã, e temos uma mulher que engravidou por acidente.

No primeiro cenário, nós temos aquela pessoa que tem o desejo real de ter um filho e cuidar dele, dando carinho, educação, suporte e atenção, e maneira que ela escolheu foi adotar uma criança que hoje não tem nada disso.

No segundo cenário, temos alguém que não deseja ser mãe, mas se doa assim mesmo, seja por empatia, seja por carinho. Costumamos chamar essas mulheres de mãe “do coração” (as aspas existem pois acho essa expressão completamente incorreta, mas já chegaremos lá).

No terceiro, sem contexto temos infinitos cenários, a mulher poderia ou não desejar ser mãe, se não, ela poderia ou não dar o filho para adoção (e não, isso não é um ato egoísta, e sim de amor, mas fica de assunto para outro texto), e se não desse para adoção, ela poderia ou não desenvolver o desejo de ter um filho. Caso todas as respostas destes questionamentos sejam não, temos um cenário de uma criança crescendo num lar sem apoio, sem carinho.

No primeiro cenário temos uma mãe “adotiva”, mas hoje já aprendemos suprimir o “adotiva”, pois ela fez por merecer o título que tem. No segundo relutamos em dar o título de mãe, mesmo sendo ela quem cria, cuida e educa, e quando aceitamos, damos título chamando de mãe “do coração” para diferenciar das demais, apenas porque não foi ela quem gerou, ou não é quem consta na certidão. No terceiro, não questionamos, damos o título sem nos opor, apenas porque foi esta mulher quem gerou e por isso ela deve ter o título.

Tudo isso, novamente, é análogo aos homens e pais.

Tratar o título de mãe/pai como algo a ser merecido nos levaria a grandes mudanças de paradigmas. Por exemplo, existem vários tipos de relações humanas, familiares, amizades, amorosas. É aceitável, hoje, que um casal termine e nunca mais volte a se falar (inclusive é bem esperado), ou que melhores amigos acabem brigando um dia e nunca mais se falem, mas em relações familiares isso não é aceitável (não normalmente), exatamente porque o título é tratado como algo imposto a quem o carrega, jamais podendo abrir mão dele. Isso muda completamente com a mudança de paradigma, teríamos rompimentos de relações familiares danosas as partes, uma vez que elas não são mais eternas, não havendo a obrigatoriedade que elas continuassem a existir se não fossem benéficas.

Mães e Pais, são aqueles que educam, criam, ajudam, dão carinho e amor, e em troca receberão tudo isso, pois como toda relação humana, a familiar também é uma via de mão dupla.

Agora, voltando a definição de pai/mãe que você havia pensado no início do texto. Quantas pessoas você conhece que na definição tradicional não tem o título, mas o merecem e ele nunca foi dado, e quantas o detém sem na verdade o merecer. Acaba sendo muito comum, mesmo que não aceitemos, conhecemos um avó de um amigo, o pai de um vizinho, sua própria mãe ou até mesmo a sua bisavó. Felizmente, hoje com a menor imposição social para que as pessoas sejam pais, o número destes casos tem diminuído.

Para todos aqueles e aquelas que conquistaram o direito ao título, este dia é de vocês, sejam mães ou pais. Não é simples aceitar e abraçar todos os desafios que a vida impõe ao escolher cuidar de alguém, é compartilhar uma parte de si, e passar seus valores e conhecimentos adiante. Por isso existem dois dias para comemorar a existência dessas pessoas que merecem serem chamadas de mãe e pai.

Fonte da Imagem: Parkson's Movement

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quinta-feira, 23 de fevereiro de 2017

Pedro Brant

Prédios


‘Já pensou quantas famílias estão ao nosso redor?’
“Que deu em você pra vir com um papo cabeça desse?” “Só come o fundi”
‘Fundi...’
‘Vem cá.’ ‘Prometo que vai ser rápido.’

Puxou o garfo de sua boca, passou as mãos pela cintura para evitar uma possível fuga, afinal, queria provar seu ponto.
Ficaram um ao lado do outro na janela. Era o décimo segundo andar, mesmo assim não tinham uma vista plena. Ficaram ali olhando ao redor.

“Qual o ponto?”
‘Shh. Pera que já te explico, só observe.’

Atendeu o pedido e apenas observou. Eram 5 prédios dentro do campo de visão, um mais baixo, a direita, todos os outros deviam ter uns 15 andares. Vários kitnets em um, ao lado eram apartamentos de vários cômodos, o mais baixo tinha um por andar.

‘Quantas famílias estão aqui ao nosso redor?’
“Não faço ideia. Mas pelos prédios na frente diria umas 30. Quantas são?”
‘Não sei. Isso que me intriga. Vivemos a 100 metros de mais famílias que conheci em anos da vida, e não sei nem os nomes deles, nem nos cumprimentamos. Olha ali.’

Um casal andava pela sala, pareciam estar preparando o jantar.

“Parece que alguém teve uma ideia parecida com a nossa”
‘Ou podem ser melhores amigos, ou quem sabe amantes, amigos coloridos, ou só usaram um app de relacionamento. Viu como o mundo é heterogêneo? Todos somos diferentes, mesmo parecendo iguais?’
“Infinitas histórias do mesmo ponto de partida”
‘Infinitas possibilidades’
“Aquele trio ali”

Três pessoas forravam uma coberta no chão e se sentavam e deitavam no chão do cômodo. Estavam rindo muito enquanto conversavam.

‘Poliamor’
“Você também vai na mais improvável logo de primeira? Podem ser amigos bebendo.”
‘Ou só felizes porque as provas acabaram’

Se olharam enquanto pensavam nas impossibilidades que estavam imaginando como se preparando para um desafio.

‘Estão esperando uma striper e um gogoboy que ganharam na rifa. Vai lá improvável, mas não impossível. Quero ver fazer melhor.’
“Faço sim, forraram o chão pois não podem tocar o chão durante o ritual de invocação que farão e precisam descarregar as más vibrações antes de começar.”

Riram tão alto que um dos três se virou para eles e sorriu.
Ficaram sem reação por um segundo, mas depois de tudo que conversaram, porque não. Levaram a mão e acenaram. E receberam de volta um beijo.

‘Que fofo.’ ‘Sua teoria fica mais plausível agora.’
“Falando em minha teoria, minha janta está proporcionalmente menos plausível.”

Mas estava falando sozinho, pois outra janela acendeu, dessa fez a pessoa estava sozinha. Se dirigiu até o batente e sentou-se com as pernas para o lado de fora do prédio.

‘Fazemos algo?’
“Por quê?” “Tá indo pelo óbvio?”
‘Sim, parece um suicida.’
“Ou então tava afim de apenas um minuto de paz e liberdade, queria ter uma sacada e não podia, por isso senta na janela.”

Em pouco tempo chega outra pessoa por trás do primeiro e entrega um balde com um pano.

‘Ou ele só vai limpar a janela?’ ‘Ah não!’
“Depois dessa vamos voltar pro fundi gelado”
‘Quantos será que chutaram que vamos comer fundi’
“Sei lá, mas aposto que alguns apostaram no sexo”

Voltaram para a comida, e ali ficaram rindo de suas ideias.

Fonte: flickriver

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sexta-feira, 16 de dezembro de 2016

Pedro Brant

O ano com cara de década

O ano com cara de década. Nunca em 365 dias neste meu quarto de século de vida eu passei por tantos acontecimentos diferentes. Quando prometi que não viveria no próximo ano na zona de conforto não esperava que fosse sem tão turbulento, mas só digo uma coisa, o “cantinho quentinho” tá frio de tanto tempo que nem sento lá.

Não vou contar dia 1 de janeiro com marco da virada, mas dia 17/12/15 o dia que me tornei engenheiro, também não vou pensar cronológico, afinal isso não é retrospectiva, é reflexão. Hoje completo um ano como engenheiro formado. Nesse tempo descobri como o mercado é cruel com recém-formados, como concorrências estão fortes e bem armadas. Descobri também como engenheiro é versátil adaptavél a quase tudo, e assim chegamos ao ano década, adaptando e reinventando a vida.

Nesses ultimos 365 dias exercitei meu poder de adaptabilidade ao extremo. Aprendi a me mudar no sentido literal, e com constância. Me desenvolvi em várias novas funções; comecei projetos diferentes; me mudei quatro vezes; perdi uma família, mas encontrei outra; fiz meu primeiro ano de namoro; encontrei pessoas sensacionais, algumas duraram muito tempo, já outras tiveram rápidas passagens, afinal a vida é passageira, assim como o tempo de intersecção de cada um de nós; entrei na empresa dos sonhos; descobri capacidades ocultas do meu ser, com algumas várias maozinhas amigas; criei considerações; perdi ingenuidades; moldei um novo futuro.

Foram “trocentas” coisas, quando parei para pensar achei que tinha sido um ano de perdas, choros e derrotas. Elas realmente existiram aos montes, algumas muito pesadas, outras muito cruéis, algumas muito inexplicáveis, mas elas foram parte do todo, pois sem os não das entrevistas, sem todos os perrengues que passei não seria capaz de achar o tudo de bom que me aconteceu. Transformei tanto problema em combustível, e assim criei os sims que recebi, achei os novos amigos que fiz, corri atrás dos vários conhecimentos que agreguei, tudo graça essa resiliencia adquirida.

Além de ver minha vida mudar de rumos algumas vezes, eu vi o mundo me mudar algumas vezes, me tornei uma pessoa realmente mais politizada, consciente das várias facetas diferentes, com opiniões proprias que parecem um frankenstein, mas que são minha convicção do mais correto.

Presidentes cairam, xenofobias cresceram, preconceitos sairam dos armários a luz do dia como algo comum, presenciei o caos crescendo devagar sobre nós com o nome de opinião, várias mortes, algumas muito lamentadas de pessoas que nunca ouvi que existiam, outras de grandes nomes. E vamos admitir, esses vários acontecimentos testam nossas reações e são um autoconhecimento de nossas prioridades, e as minhas ficaram mais claras com essa década de acontecimentos em 365 dias.

Sabem, eu me perguntava quando a gente sentia que tinha passado da adolescencia para a fase adulta, depois deste um ano engenheirando sinto que terminei de cruzar a linha e realizar a transição daquele jovem adulto cheio de sonhos e ideias, para um jovem engenheiro cheio de planos e objetivos. Sei que para muitos soará a mesma coisa, mas acredite a conversa entre essas duas pessaos seria muito interessante, pois em quase nada concordariam e de quase tudo discordariam.

Mas acredite, não foi o autoconhecimento o ponto máximo desse ano, apesar que ele se encontra em segundo lugar. O grande marco deste ano foi descobrir a importância e a função de cada um que me cerca, descobri as pessoas que são empáticas e confiáveis, e pude contar com eles em cada problema diferente, e a eles devo dedicar a sobrevivência incólume a este ano.

Que venham os próximos 365 pois estou pronto.
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sábado, 25 de junho de 2016

Pedro Brant

Brainstorm sobre distância


Já sentiu saudade de alguém? Procurou soluções para sumir com centenas ou milhares de quilômetros? Você não é o primeiro nem será o último a querer dar um jeito nisso. Mas ao mesmo tempo que várias pessoas buscam diminuir a distância usando artifícios como redes sociais, algumas pessoas tem o dom de aumentar distancias antes praticamente inexistentes.

A tecnologia permite que pessoas fiquem tão próximas quanto quiserem. Ao toque de um celular se é possível compartilhar momentos, ideias, fatos, músicas e vídeos. “Aquele vídeo engraçado? Ah, preciso mandar para aquela pessoa! Essa página com essa lista engraçado, tenho que mandar pra minha mãe!”

Mas estamos realmente nos aproximando? Quando pessoas na mesma casa chegam ao ponto de mandar uma mensagem ao invés de falar uns com os outros pessoalmente, isso não seria nos afastar?

A grande adesão de redes sociais em nossas vidas, nos permite alcançar um número infinitamente maior de pessoas. Mas apenas alcançar não gera uma interação. E interagir não significa formar laços. Para interagir é preciso se conectar ao outro num nível muito mais íntimo que o atual “aceitar solicitação”, e criar laços é muito mais que algumas frases trocadas numa tela.

Estamos vivendo majoritariamente dentro da rede, em amizades superficiais, e a parte mais grave disso é que achamos normal. As relações têm se degradado na mesma velocidade que novas redes sociais e aplicativos surgem pelo mundo. A falsa sensação de proximidade nos deixa cada vez mais longe, lendo as palavras do outro ou ouvindo sua voz por meio de gravações. A tal tela mágica que o celular tem se tornado nos abre a um novo mundo e nos fecha ao nosso próprio.

E aquelas relações não degradadas, mas que se mantem ou renascem graças a estas ferramentas, e telas mágicas? Amigos de infância que se reencontram, casais que se mantem juntos em países diferentes através dessa tela, filhos que veem os pais morando em outro estado, melhores amigos que não perdem contato quando tocam suas vidas. Estas são relações cujos laços são tão fortes, tão reais, que a distância não se torna empecilho, ela vira detalhe, que as redes sociais não se tornam meio de degradação, se tornam facilitador.

Mesmo assim, ainda que o celular esteja a menos de um braço de distância, isso nunca vai significar que aqueles que são importantes também estarão. Estamos apenas nos acostumando a enganar a saudade, ludibriando-a, usando de artifícios como ligações SMSs, Facebook e Skype. E vamos ficar assim até que a última bateria acabe a última tela apague.

Estamos todos a um celular de distância.

Fonte:best-and-worst-of-distance
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terça-feira, 21 de junho de 2016

Pedro Brant

A Casa da Árvore

Aquela casa na árvore já estava mais para casa fantasma, com seus dois pequenos cômodos com todos os seus esconderijos e segredos. Há anos ela não convivia nenhuma gargalhada de criança, não era o ponto de nenhuma reunião secreta ou a base de nenhum vilão prestes a destruir o mundo.

Para qualquer um parecia agora apenas uma pilha de madeira esperando o fim de sua decomposição, mas não para mim. Eu apenas via ali um baú do tesouro, guardando tantas lembranças quanto possível. Eu vi tantas coisas acontecer ali naqueles galhos, batalhas interestelares entre diferentes raças e com as mais diversas armas e poderes, também houveram lutas medievais entre casas nobres e cavaleiros e cavaleiras honrados, várias dimensões diferentes, algumas das quais criadas apenas para aquela ocasião. Mas a maioria dessas histórias terminava com final feliz, mas algumas tinham, no fim, que sofrer intervenção de uma “entidade superior”, mas eu realmente quase nunca tinha que interferir.

Os anos foram passando e as lutas e dimensões foram ficando casa vez mais escassas. Mesmo que eu ainda tentasse estimulá-las a acontecer, elas naturalmente diminuíram. Até que vi os guerreiros abandonarem o campo de batalha das várias dimensões para irem a batalha da nossa dimensão.

Vi aqueles que achei que não cresciam, crescerem e irem ao mundo. Quando temos um filho nós acabamos emprestando um pedaço de nós, a questão é só que nunca mais pegamos isso de volta, eles ficam carregando para sempre esse pedacinho com eles, sem nem saberem que possuem com eles tal parte.

Ficamos procurando com o que preencher esse pedaço quando o vemos partir, e ver a casa da árvore desta forma só ajudou a aumentar a sensação. Foi então que, como pressagio, resolvi começar a reformar a casa da árvore. Estava só em casa, por seis meses, então vi minha grande chance.

Foi quase um semestre inteiro, pela primeira vez eu e a casa da árvore tínhamos um segredo só nosso. Reformar cada madeira, cada cômodo, sem perder a essência, sem matar nenhuma lembrança, sem revelar nenhum segredo que havia sobrevivido por todos esses anos, isso sim foi uma tarefa quase impossível.

Terminei. Minha tarefa de aposentado, bem a tempo de surpreender cada um deles. O almoço de natal em família está quase aí e até o papai vai vir. Está acabando a pós e ele chegará também a tempo. Já imagino a cara deles.

O grande dia, engraçado como cada um deles já esqueceu da existência da casa da árvore, estão tão presos nesta dimensão que se esqueceram de todas as ameaças que eram combatidas ali. Estávamos ali, já de barriga cheia, ao redor da mesa. Meu momento perfeito de chamar todos para sentar no quintal, afinal tá um sol lindo.

Queria ter tirado uma foto das caras deles, os cinco desligaram dessa dimensão e é como se tivessem entrado naquele turbilhão de lembranças que eu fiquei marinando por meses enquanto reformava a casinha. Nos abraçamos por um minuto que parecia eterno. Ouvi um obrigado pai, seguido daquela que seria a única surpresa que não esperava naquele momento, você vai ser um ótimo vô.

Vô. Olha só, não reformei a casa da árvore pra mim, reformei para o meu neto. Uma daquelas grandes coincidências da vida. 

Parece que verei novas aventuras em breve.

Fonte: itsmyhouse
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sábado, 18 de junho de 2016

Pedro Velloso

Brainstorming sobre honestidade


Hoje fui pagar 1 real que fiquei devendo na farmácia. Era só um real, mas eu ouvi "Nossa! Que raro. Geralmente ninguém volta".

Chegamos ao meu ponto, dessa vez bem rápido. Estamos tão acostumados com a desonestidade, com a vontade de ganhar em cima de todos ao nosso redor, que é estanho ver alguém sendo honesto e ajudando o outro. Chegamos ao ponto de hipocrisia que a desonestidade soa como honestidade e que atos honestos geram desconfiança.

Isso me lembrou de quando eu era criança que achei uma carteira cheia de dinheiro perdida na escada do prédio de minha tia. Levei a carteira ao porteiro e pedi que ele achasse o dono. Quando contei em casa meu pai ficou perplexo, indignado ele disse que eu devia ter ficado com o dinheiro e que era óbvio que o porteiro iria roubar a carteira para ele agora e que o dono não receberia a carteira mesmo. Dois pontos podem ser vistos nessa história: Primeiro, o dinheiro não era meu e podia estar fazendo falta para alguém. Segundo, que raios é essa história de sempre achar que o outro é desonesto, o porteiro pode muito bem ter achado o dono, uma vez que ele conhecia todo o prédio melhor que ninguém.

Todos reclamam de corrupção e dos problemas do nosso pais, mas por que não começar parando com a sua própria corrupção? Aqueles pequenos atos como provar uma fruta no mercado antes de pesar, não devolver o troco recebido errado, não avisar quando o operador passar o produto a menos, devolver aquela moeda que uma pessoa derrubou.

Deveríamos parar para ajudar alguém que precise de qualquer, seja abrir um saco de verdura para uma mãe com o filho no colo, pegar um papel no chão para uma pessoa com dificuldade para abaixar, dar um moletom velho que você nem usa mais para alguém que precisa. Hoje, com a nossa cultura de jamais ajudar o outro, quando você se prontifica a ajudar, é prontamente encarado e julgado, consequentemente, inibido.

Precisamos para de procurar um "jeitinho" de resolver problemas, avisar quando receber o troco errado, para procriarmos uma cultura que permita que tenhamos um mínimo de confiança na pessoa ao lado. Mudando nós mesmos, mudamos o paradigma que rege esse pais, mudando como nós comportamos faremos a próxima geração ser diferente, ou no mínimo ver um mundo em mudança para melhor.

Nada mudará sozinho. Temos de ter a coragem de mudar a nós mesmos e não buscar mais jeitinhos, parar de fingir que esqueceu de pagar o um real que faltou na hora de pegar o remédio na farmácia. Porque, simplesmente, honestidade não deve ser qualidade, mas sim um valor, e esse valor deve ser levado para sempre e passado de geração para geração. Não desista quando parecer que está tentando enxugar gelo, pois realmente estará, estaremos todos, mas com as mãos necessárias podemos secar o Alaska se quisermos.

Pequenos atos, juntos somam grandes mudanças, e no fim só depende de cada um.

Fonte: Culturamix

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